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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Eles estão doidos!
Por António Barreto
A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta "produto não válido", mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.
«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007
domingo, 2 de dezembro de 2007
sábado, 1 de dezembro de 2007
Novas Reportagens Online * Música
Agharta
Live at Bacalhoeiro
2007
Uxukalhus Live at Praça do Comércio - Lisboa 2007
Tó Trips (a solo)
live at ZDB
2007
J. Braima Galissá ( a solo )
live at ZDB
2007
Oquestrada
live at ZDB - Lisboa
2007
Federico Aubele
live at Aula Magna - Lisboa
2007
Josh Rouse
live at Aula Magna - Lisboa
2007
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Nova Report Online * Mudar de Vida
Jornal Mudar de Vida
Sessão de apresentação e debate: "O que é um jornal político popular?"
Convívio musical com:
José Mário Branco
Pedro e Clara Branco
R.O. ( a.k.a Kapeta)
Kromo di Ghetto
SDD
Hezbollah Abugarim
L.B.C. Soldjah ( a.k.a. Blacksunt Zureu)
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Sessão de apresentação e debate: "O que é um jornal político popular?"
Convívio musical com:
José Mário Branco
Pedro e Clara Branco
R.O. ( a.k.a Kapeta)
Kromo di Ghetto
SDD
Hezbollah Abugarim
L.B.C. Soldjah ( a.k.a. Blacksunt Zureu)
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Concerto ZDB * Triceps_biceps_sessions
Blood Safari (UK/PT)
Blood Safari
Depois dos Tédio Boys e dos Parkinsons, Vítor Torpedo e Pedro Xau recrutaram os britânicos Charlie Fink (voz) e Mr. Stix (bateria) e formaram os Blood Safari, imparável celebração rock na linha dos Gun Club ou The Cramps. Menos Clash que Parkinsons, mais Gun Club e Damned (do início). Carisma e festa a rasgar.
+: myspace
+: vídeo
Entrada: 7,5€
Concerto ZDB * Na_terra_do_bor_sessions
La La La Resonance (PT)
Ölga (PT)
La La La Resonance
Poucos terão sido os projectos portugueses que elevaram as expectativas do seu público tanto quanto os The Astonishing Urbana Fall. O grupo de Barcelos marcou um tempo do nosso rock/pop criando um consenso de rara admiração e extensa legião de fiéis. O percurso dos TAUF, no entanto, não haveria de se vergar a ninguém. Assente na ideia de diferença, o grupo haveria de se metamorfosear para, passada uma década, chegar ao primeiro longa duração como quem sabe amadurecer. A maturidade traz um novo irónico nome, La La La Ressonance, e o disco, Palisade, é como mais uma estaca defendendo a liberdade formal em que sempre acreditaram. Instrumental, ambiental, jazzístico, carismático, este passo não completa a carreira destes músicos, aumenta-a, obrigando a uma contínua catalogação que, quanto a mim, nunca poderá, nem deverá, ser segura. Palisade é brilhante no seu despojamento. É um disco típico de quem nunca teve pressa. Resulta numa simplicidade desarmante, fazendo lembrar, por vezes, o novo jazz nórdico, misturado com alguma solaridade.
+: site oficial
+: myspace
+: vídeo
+: vídeo
Ölga
Casos há em que é necessário dar um passo atrás ou parar para assimilar todo o conhecimento ganho e seguir em frente. Casos há em que o desaparecimento de algo está directamente ligado com o nascimento de outra entidade. Com a saída do violoncelista Rodrigo Filipe (logo após o lançamento do ep Ölga), os concertos que se seguiram ao lançamento do primeiro registo mostravam já uns Ölga mais experimentais e mais desprendidos, à procura de um caminho distinto, ideias que What Is concretiza de forma sólida, com um olhar no futuro.
Com efeito, What Is vê os Ölga a traçarem um caminho mais próprio, cada vez mais distante do pós-rock e mais próximo do krautrock, do experimentalismo, do psicadelismo. What Is é um disco que vive de pormenores, da percussão, das direcções e da troca de direcções, da descoberta instintiva de espaços e territórios distantes, do uso de samples, da delicadeza e exploração da simplicidade e do abstracto, com as suas paisagens transparentes e percussão galopante, é um dos exemplos mais evidentes de um objectivo proposto e concretizado, o da afirmação de uma personalidade cada vez mais própria e singular.
A partir de textos da editora
+: editora
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Entrada: 6€
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